BURNING LETTERS


 

Em "Burning Letters / Queimando Cartas" um homem (Mister Du) queima cartas de amor num ritual, acreditando, que através deste gesto, o passado será apagado e um novo amor restaurado.
Queimar cartas, memórias de amores difíceis, na esperança de que melhores tempos venham.
Após a final de uma relação, na generalidade, devolvem-se as cartas e os objetos íntimos trocados entre os amantes. A devolução dos objetos (outrora amados e agora símbolos desse amor perdido) tornam-se objetos de uma memória a que não se quer volver. Por isso se queimam as cartas, se apagam os emails, as mensagens trocadas... Tudo para “apressar” o esquecimento.
Mas ao queimar, apagar, essas palavras que marcaram os momentos mais lindos de uma relação, estamos também a apagar da nossa memória tudo aquilo de bom que essa relação pode ter trazido.
Devemos, pois, ser seletivos nessa “limpeza da casa”. Devemos guardar para nós, no lugar mais fundo do coração, esses objetos, essas palavras lindas que ainda nos podem fazer sorrir. Limpar sim, mas com cuidado. Devemos esquecer apenas o supérfluo, o banal, o desperdício, mas o importante, esse devemos guardar no mais fundo de nós, e agradecer por ter passado por essa experiência maravilhosa.
Não estou a falar de separações conflituosas e irreparáveis. Estou a falar de separações amigáveis, onde o amor, assim como assim, acabou por esmorecer e partir.

O ato de “esquecer” deve ser um ato consciente. E mais que tudo, partilhado. Se possível com a própria pessoa que se pretende esquecer, mantendo com ela uma relação de amizade sincera. Caso isso não seja possível, manter uma distancia saudável, e partilhar a dor com os amigos.
Esquecer e queimar as más memórias. Guardar as boas.

Deve-se, assim, providenciar de uma taça – de preferência de vidro – para deixar fluir as energias e o calor. Encher a mesma com todos os papeis desnecessários que o ligam ao outro. No caso presente, com estudos e esboços para alguns trabalhos que desenvolvi em parceria com ela, algumas fotos mal conseguidas e / ou mal impressas...

Rasgar tudo em pedaços pequenos.
Providenciar uma espécie de altar, de local onde possa realizar a operação com veneração e compenetrado.
Com uma música tipo tântrica, comece a queimar os papeis, procurando não inalar o fumo, mas sentir o calor a entrar dentro de si. O calor e o fumo que se liberta irá purificar as suas memórias. Faça tudo isto com extrema serenidade. Sem raiva. Sem medo. Sem esperança. Compenetre-se apenas no momento.
Após alguns minutos abandone o local, deixando arder os restos até fazer cinzas.
No final, pode deitar as cinzas fora (eliminando toda a possibilidade de regresso desse amor) ou guarde na esperança de um dia a chama se reavivar. Mas guarde fora da sua vista.

In “Receita para Corações partidos” (Rompeschiena).





Comentários